Afirma Pereira

Afirma Pereira: influência do Salazarismo na Lisboa de 1930

Oi gente, tudo bem? Como está sendo a semana de vocês? Por aqui bem corrido com os estudos, trabalho, e consegui terminar Afirma Pereira, de Pierre-Henry Gomont, mais uma Graphic Novel lindíssima da Editora Nemo.

Afirma Pereira, de Pierre-Henry Gomont

Depois de passar um tempo na Noruega, no litoral do Japão, vamos agora para Portugal de 1930. Iremos acompanhar o senhor Pereira, um viúvo que trabalha num jornal católico em Lisboa durante o Estado Novo, regime político também chamado de salazarismo. Apesar de ter muitas ideias diferentes, querer escrever outras pautas, ele limita-se a seguir o “roteiro”. Ou seja, escrever somente aquilo que esperam dele.

Você pode se questionar se é por preguiça, má vontade, ou mesmo falta de compromisso com o trabalho. No entanto, estamos falando de uma época em que os meios de comunicação não podiam se rebelar contra o sistema. Ou seja, tudo o que era publicado passava por aprovação.

Jovens: visionários ou rebeldes?

Até então, Pereira estava tranquilo quanto a isso. Mas, ao conhecer dois jovens visionários sua percepção da realidade começa a mudar. Hoje esse jovem seria considerado um rebelde porque é contra o sistema e toda a ideologia pregada pelos que estão no poder. Em 1930, em Lisboa, a situação era um tanto mais caótica, pessoas perdiam suas vidas por defenderem seus ideais.

Além de conservador Pereira é católico. A religião está tão empregnada em seu interior que ele vive seus dias como se a igreja sempre ditasse o que é certo ou errado. Ele, muitas vezes, não consegue agir por conta própria. Sempre sentindo-se culpado por maus pensamentos, por certas vontades, ou ainda por querer agir de determinada maneira. Essa relação com a religião é tão intensa que Pereira busca se confessar todos os dias, o que chama a atenção do padre que lhe questiona se ele realmente fez algo de “ruim” que precise de absolvição.

A rotina de Pereira é sempre do mesmo jeito, sua preocupação na maior parte do tempo é seu trabalho. Quando não está trabalhando despende horas conversando com a fotografia de uma esposa. Muitas vezes lhe pedindo conselhos e contando fatos pitorescos do dia a dia.

Afirma Pereira

Impotência, a sensação de não poder fazer nada

Pereira, no caminho para o trabalho, muitas vezes vê inocentes sendo torturados, presos, agredidos, e quando questionado sobre sua presença ele logo acelera os passos e vai embora. Semelhante a ditadura em que muitas pessoas foram presas ou enviadas para fora do Brasil. O que grande parte das pessoas em Lisboa faz é seguir suas vidas como se não tivessem visto nada.

O que torna a história ainda mais interessante é que algumas pessoas são pagas pela polícia para vigiar seus vizinhos. Ou seja, denunciar qualquer início de manifestação ou pessoas que pensem o contrário do sistema. Essa é a função da zeladora do prédio onde Pereira trabalha. Muito curiosa confere todas as correspondências e descobre que o tranquilo trabalhador anda recebendo cartas que levantam suspeita. Ela logo encarna o espírito de detetive e começa a monitorá-lo diariamente.

Num outro momento Pereira passa mal na rua, ao ser atendido o médico diz ser algo no coração. Ele então decide passar uns dias numa casa de repouso. Lá poderá se alimentar de maneira saudável, praticar exercícios, fazer caminhadas no final da tarde, e fazer novas amizades. É assim que ele conhece um senhor muito simpático e cheio de vida que defende os mesmos ideais que o jovem rebelde de Lisboa. Mas, como Pereira é inseguro mantém sua posição política neutra.

Tudo muda quando homens perigosos estão em busca desse jovem e Pereira precisa encontrar um lugar para escondê-lo por alguns dias. Suas vidas, a partir de então, serão mudadas para sempre.

O que achei de Afirma Pereira

Num primeiro momento o que me chamou atenção foi o período histórico escolhido pelo autor (O Estado Novo (1933-1974). Como comentei em outros posts gosto muito de estudar, aprender coisas diferentes, e foi uma surpresa Afirma Pereira ser ambientado numa Lisboa de 1930. Fiquei instigada a pesquisar sobre o Salazarismo, sua influência, e quais as consequências ao longo dos anos.

Desde muito tempo política e religião caminham lado a lado. A exemplo disso tem-se o Vaticano e seu poder como instituição religiosa ao longo dos anos. Em Portugal, não muito diferente, era forte a influência da Igreja Católica.

Se pudesse definir Pereira com uma palavra seria: insegurança. Apesar de já ter uma certa idade, ele não tem autoconfiança quanto aos seus ideais, aos seus objetivos, ou como será sua vida daqui pra frente. O diálogo com a fotografia de sua esposa por vezes parece mais um questionamento a outra pessoa (como se esperasse que ela respondesse e lhe guiasse) do que uma conversa consigo mesmo. Receio de tomar decisões e ser punido por isso permeia toda a história. Daí a importância de analisar como a igreja influencia seus seguidores.

Fui uma adolescente criada dentro da igreja. Estudei catequese, fui coroinha, participei de grupos de jovens, inclusive estudei para ser freira. Por essa vivência consigo entender o conflito interno vivido por Pereira. Como se aquelas vozes sempre estivessem dentro de nós. Será que estou desagradando meus pais, o padre, a igreja? Se eu fizer isso ou aquilo ainda serei admirada? Por mais que o tempo passe algumas vozes se tornam parte da consciência, como se alguém estivesse sempre julgando nossas ações. Me identifiquei muito com o protagonista nessa questão.

Bom, quanto a edição, a Nemo mais uma vez presenteou seus leitores com um trabalho gráfico incrível. As ilustrações, a arte de capa, a história em si, foi uma experiência bem interessante.

Agora me conta, já leu alguma HQ da Editora Nemo? Tem uma favorita? Qual foi o último livro ambientado em Portugal que você leu? Antes de ir deixe um comentário contando o que achou 🙂

Até o próximo post, Érika ♡


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16 Comentários

  1. Olá Erika,
    o único livro ambientado em Portugal que eu já li na vida foi “O amante da Princesa” de Larissa Siriani, é um romance bem gostosinho e emocionante. No que diz respeito a esta história que você descreveu, para além de todas as questões de opressão política, eu também me identifiquei com a questão religiosa, também cresci na igreja mas no meu caso, na igreja evangélica. E para mim é exatamente como você disse, parte do que aprendi e vivi impregnou em minha consciência, eu simplesmente não consigo ser e nem fazer nada que possa vir a desagradar a Deus, isso segundo o que aprendi dentro da igreja que frequentei. Muitas vezes eu me pódo no agir e no falar por acreditar que aquilo vá contra os ensinamentos que tive. É algo que se entranha sob a nossa pele. Eu imagino que nunca saberei quem eu realmente seria caso não houvesse sido exposta a este tipo de influência.

    Abraços!
    Nosso Mundo Literário

  2. Olá Érika, tudo bem?

    Ainda não li nenhuma HQ da Nemo, mas sempre que vejo suas resenhas sobre as edições deles fico babando. Essa Graphic Novel, em especial, tem tudo para ganhar meu coração. Amei todos os pontos que foram abordados, são necessários e interessantes. Você arrasou demais no post!

    Beijos!

  3. Li sobre o Salazarismo há muito, muito, muito tempo mesmo, e fiquei absurdamente curiosa para saber como a temática é trabalhada, lógico que sempre fica a expectativa por ser da NEMO, sempre espero o melhor. Lendo sua resenha, penso como é forte um ser humano ver outro sendo torturado e continuar a levar a vida como se fosse tudo normal, chocante. Quero muito ler essa gracinha.

  4. A Nemo sempre sensacional na escolha de seu catálogo, né Erika? Dificilmente leio algo deles que não me agrada. Na verdade, nunca “não gostei” completamente de nada deles. E tenho minhas GN queridinhas deles: Não Era Você Que eu Esperava, e A Diferença Invisível. AMO AMO! Mas, gosto bastante de outras, como Placas Tectônicas, O Muro… E por aí vai!
    Eu fiquei muito interessada em adquirir essa história, bem por causa de sua resenha. Não conhecia ainda! E parece ser uma história bastante profunda, um tanto filosófica, e bastante original. Gostaria de acompanhar as agruras de Pereira. Fora que as ilustrações tb chamam muito a atenção.
    Valeu pela dica. Mais que anotada!!! Abraços

  5. Oie, tudo bem?
    Acredita que lendo o seu post fui perceber que nunca li uma HQ da Nemo? Em minha defesa, eu raramente me aventuro no gênero. Mas sei que a editora tem edições incríveis e essa parece ser uma dessa. Amei muito a premissa, ainda mais pela ambientação e contexto histórico. Pelo que você falou, parece ser uma ótima leitura. Amei o post e vou adicionar a indicação na minha lista.
    Beijos

  6. eu gosto muito das hqs da nemo, sempre trazem conteúdos para além do simples né? essa eu ainda não li mas me parece uma boa forma de ver como a religião influencia e pesa na vida das pessoas.

  7. Olá, tudo bem? Se tem um tipo de leitura que preciso aprender a colocar mais nas minhas wishlists e planejamentos, é a de quadrinhos. Gostei da indicação que trouxe, principalmente pelo fato de ambientada em Portugal de 1930, um período que acho interessante. Além disso, as indagações feitas pelo protagonistas são pertinentes e são tópicos que me chamam atenção. Com certeza dica anotada! E sobre ler quadrinhos, como falei, não é algo que cultivo dentro da minha grade de leitura, mas quero mudar isso. Excelente postagem!
    Beijos

  8. Muito bom quando a gente se identifica com os conflitos do personagem. Pereira parece um personagem interessante.
    Abraços, Alécia 🙂

  9. Eu amo quadrinho e já li inúmeras. Uma de minhas favoritas é Persépolis, HQ iraniana que a gente acompanha a queda do Xá. Esse belamente resenhado me chamou muito atenção pelo período Salazar, tempos sombrios assim me atraem para entender como as pessoas lidavam em tempos de repreensão, outro ponto interessante é essa culpa cristã que o personagem carrega, algo que até mesmo você se enxergou na obra. É algo muito forte. Eu com certeza lerei essa obra. Dois autoras portugueses que gosto são Valter Hugo Mãe e Afonso Cruz.

  10. Oi Erika.

    Eu estou conhecendo essa graphic novel da Nemo através da sua resenha, pois ando um pouco por fora das novidades e ela contém um conteúdo bem interessante sobre religião e política. Vou deixar sua dica anotada, pois estou bastante curiosa pelo personagem Pereira.

    Bjos

  11. Confesso que o título super me afastaria dessa HQ, mas do jejito que vc falou me vez despertar muita curiosidade sobre ela hehehe

  12. Eu li o livro Afirma Pereira e amei, não sabia que haviam transformado em histórias em quadrinhos. Fiquei curiosa, pois a escrita do Tabushi é muito envolvente e te faz imaginar as cenas muito facilmente.

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